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09/03/2010
A I CONFECOM E OS DESAFIOS DA SOCIEDADE CIVIL NO CAMPO DA COMUNICAÇÃO

A I CONFECOM E OS DESAFIOS DA SOCIEDADE CIVIL NO CAMPO DA COMUNICAÇÃO

Prof. Adilson Cabral - Departamento de Comunicação Social da Universidade Federal Fluminense

 

Por mais que se tenha passado um significativo tempo da realização da I Conferência Nacional de Comunicação (I CONFECOM), realizada em Brasília no período de 14 a 17 de dezembro de 2009, e já possam ser ensaiadas análises com o devido distanciamento, não se pode dizer nem que o evento não tenha servido de nada, nem que tenha sido o marco de um novo tempo nas políticas públicas capazes de efetivar a comunicação democrática como direito humano no país.

Esse melhor dos quadros, aliás, não estava nem nas expectativas mais otimistas em relação à I CONFECOM nos últimos meses antes de sua realização. Dada a forma como foi convocada, regulamentada e conduzida ao longo do ano de 2009, concebia-se como um momento diferenciado nas relações entre Estado, Mercado e Sociedade Civil na formulação de políticas públicas de Comunicação, mas identificado como uma primeira etapa de um longo processo, construído no aprendizado de um diálogo tripartite num tema historicamente delicado da política nacional. Ninguém poderia prever, no entanto, que o documento final dessa primeira etapa pudesse diminuir a extensão dessa caminhada.



Da euforia das primeiras avaliações à pragmática do mundo real


As avaliações de primeiro momento, saídas do "front" da batalha, traziam duas características comuns: apontar uma sucessão de episódios que diziam respeito à emoção de quem os viveu intensamente os quatro dias da I CONFECOM, mas que às vezes dificultavam a compreensão daqueles alheios ao processo, e evidenciar a qualidade do resultado final do evento a partir do somatório de propostas relevantes aprovadas, mesmo que reconhecendo dificuldades no processo que o antecedeu, sinalizando também para a expectativa de um futuro de melhor compreensão e de conquistas no setor.

A realização da I CONFECOM contou com sucessivas tentativas de esvaziamento da participação da sociedade civil (inclusive com ameaças de corte substancial de financiamento), de compreensão e acolhida de todos os senões impostos pelo setor empresarial (e mesmo assim contando com a debandada de uma parte significativa deste, alegando a imposicão de uma política esquerdista por parte da sociedade civil com o apoio do governo), além de um regulamento que, desde a constituição dos setores ao processo de votação, prejudicava a participação da sociedade civil em relação aos demais segmentos sociais.

Para um documento final concebido a partir desse quadro, algo que escapou das análises de véspera deve ter acontecido e ainda não se foi capaz de captar: desde a compreensão de que a sociedade civil tenha conseguido superar todas as dificuldades estabelecidas, se comportando de modo a captar consensos possíveis ao longo do processo, culminado na eficiência do documento final até a ideia de que os segmentos não tenham sido suficientemente hábeis para apreender plataformas e expectativas dos outros em relação ao evento, identificando na disposição do diálogo os pontos em comum que resultavam numa agenda mais convergente do que anteriormente se esperava.

A agenda dos meses posteriores, além de intensa, foi significativa para ameaçar a continuação da dialogicidade do processo que resultou no documento final da I CONFECOM. Do lado do governo brasileiro, a expectativa em relação ao anúncio do padrão de rádio digital a ser adotado no país e à efetivação do Plano Nacional de Banda Larga (PNBL), que envolve estruturas já em curso no governo e outras a serem reaquecidas, como a Telebrás e a Eletronet. Há também, em relação ao Ministério das Comunicações, a expectativa frustrada do anúncio da regulamentação dos Canais da Cidadania, previstos no Decreto 5820/2006, que instituiu a TV Digital no Brasil. Não se pode esquecer a reação do empresariado da mídia comercial ao anúncio do Programa Nacional de Direitos Humanos (PNDH-3) no que diz respeito ao controle da mídia, dentre outros assuntos para além do campo das Comunicações, evidenciada através do 1° Fórum Democracia & Liberdade de Expressão, promovido pelo Instituto Millenium, demonstrando que a ameaça e o desconforto por parte da mídia corporativa a levou a mobilizar seus exércitos intelectuais e braçais na manutenção de seus interesses.

O fim da I CONFECOM anuncia um novo movimento (?)


Em paralelo a essa agenda, as diversas pessoas, grupos, organizações e movimentos da sociedade civil no setor reencontram-se no dilema de dar resposta a essas e outras questões mais imediatas e/ou dar continuidade à reconfiguração de seus coletivos e articulações nos níveis municipal, estadual e nacional, nos moldes do resultado da Conferência. Desde as que seguem dando continuidade às suas agendas específicas àquelas que estão na expectativa das orientações das entidades mais diretamente relacionadas à área, tais articulações se constituem também num ganho devidamente identificado nas análises ao longo da I CONFECOM, especialmente no que dizem respeito à constituição das redes de atuação nas agendas locais.

No entanto, as expectativas presente e futura em relação a sua continuidade, na percepção de ser esta a já mencionada primeira etapa de um longo processo, caminham para percepções distintas diante do documento final da I CONFECOM. Para além de suas sucessivas etapas, cabe lembrar que a primeira fase ainda não chegou ao seu término, visto que todas as propostas aprovadas na I CONFECOM são fruto de uma compreensão comum daquele momento, mas sem o compromisso de sua efetivação. E, dada a complexidade do movimento social que atua na área e o momento histórico de um ano que elegerá o sucessor de Lula na presidência do país, ainda haverá o trabalho de identificar prioridades em relação ao conjunto das propostas aprovadas e os modos de buscar sua melhor efetivação, recompondo, de certa forma, o próprio resultado final do evento, já que haverá propostas a serem tratadas como mais importantes do que outras.

Por sua vez, outra expectativa em relação ao legado da I CONFECOM diz respeito à disposição do campo da sociedade civil em efetivar um movimento social de comunicação, sendo por este referenciado a despeito das vinculações externas de seus membros. Nesse sentido, ao invés de tecer sucessivas lembranças sobre os quatro dias de I CONFECOM, vale resgatar o que significou a realização da plenária da sociedade civil no dia anterior ao da abertura da I CONFECOM, quando as bancadas das entidades nacionais com assento na Comissão Organizadora do evento se ausentaram da reunião para decidir se iriam ceder por mais uma vez às demandas do setor empresarial para garantir a realização da Conferência, a despeito da garantia de uma participação equivalente entre os três setores. Não havendo acordo, a plenária de votação do regimento interno, no dia seguinte, cunhou uma proposta de consenso entre lideranças destas organizações, apoiada pela maioria dos delegados presentes, que se mostrou satisfatória ao final dos trabalhos.

O movimento de comunicação consiste basicamente de entidades nacionais relacionadas a organizações de trabalhadores do setor, com suas (sobre)representações partidárias, em sua maioria no campo que pode-se definir como esquerda. Há outras organizações mais próximas da definição de movimentos sociais que recontextualizam a dicotomia capital-trabalho sem superá-la ou mesmo desconsiderá-la, tais como organizações ligadas à iniciativas contra-hegemônicas de comunicação e as nascidas ou oriundas de movimentos de estudantes de Comunicação. E também um sem número de organizações de outros setores, que vem incorporando questões comunicacionais e midiáticas em suas agendas, dada sua importância cada vez maior como componentes de suas reivindicações, como os movimentos de mulheres, negros e, mais recentemente, o LGBT.

Mesmo diante da afirmação de uma dinâmica de trabalho e de uma atuação política que resultou numa referência para a consolidação das políticas de comunicação para os próximos anos, as questões que movem as organizações mantenedoras da hierarquia presente no contexto dessa diversidade podem novamente promover o distanciamento do caminho a ser percorrido na efetivação das propostas constitutivas do documento final da I CONFECOM. Este que se constituiu no irreversível retrato de um país possível, dotado de outra comunicação extremamente mais desejável. Por outro lado, essa nova tessitura de movimentos sociais, que percebem na comunicação um tema estratégico e se apropriam de suas tecnologias bem como de seus processos regulatórios, potencializa a efetivação de um novo tipo de movimento, transversal entre os movimentos tradicionais ligados à questão do trabalho e aos chamados novos movimentos sociais, que afirma em suas práticas e reivindicações a importância da comunicação para a sociedade contemporânea que reivindica outro mundo possível.

Esse é um desafio que transpõe não só a realização das Políticas de Comunicação no âmbito das conferências como espaço de articulação multissetorial, mas que se coloca para o conjunto das entidades que buscam afirmar a comunicação democrática em sua luta cotidiana, no marco de
uma série de dispositivos de atuação política, sinalizados no documento final da I CONFECOM.

 

 
 
 

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