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09/01/2010
Marcos Dantas faz relato sobre a Confecom

Confecom: sociedade venceu, Abert e ANJ perderam

Marcos Dantas[1]

 

A Iª Conferência Nacional de Comunicação (Iª Confecom) foi um sucesso! Realizado, em Brasília, de 15 a 17 de dezembro últimos, o encontro acabou fazendo do governo Lula o maior vitorioso, trazendo com ele, para justos festejos, as grandes representações sociais  comprometidas com o seu projeto (CUT, FNDC, Fenaj, Abraço etc.)  e  duas  associações  empresariais,  a Associação  Brasileira dos Radiodifusores (Abra) e a Telebrasil. Do lado oposto, os grandes derrotados foram as Organizações Globo, à frente da Abert, a Associação Nacional dos Jornais (ANJ), a ABTA (TV por assinatura) e outras entidades empresariais que boicotaram o encontro e apostaram no seu fracasso. Viram-se obrigadas, depois, diante da impossibilidade do silêncio, a produzirem editoriais em seus principais veículos, a exemplo do “Jornal Nacional” ou da Folha de S. Paulo, tentando dizer que o encontro foi o que, justamente, ele não foi: uma celebração do autoritarismo e da censura. Ao contrário, foi uma demonstração da possibilidade e necessidade de as políticas de comunicação serem discutidas e formuladas em espaços de debate democráticos. Autoritários, sim, foram aqueles que se recusaram a discutir.

 A Confecom não foi, porém, de construção fácil. Daí, há que se reconhecer, o mérito dos homens do presidente que coordenaram o processo, os ministros Franklin Martins, Luis Dulci e até o vaiado, na sessão de abertura, Helio Costa. A Abert, jogando com todo o peso da sua liderança empresarial, insistiu, dentro da Comissão Organizadora Nacional (CON), em impor regras e limites que estreitariam as margens de debate e, a cada concessão a ela feita, maiores se faziam as suas exigências. Acabou, ainda assim, se retirando da CON, logo do processo, levando outras entidades consigo. O governo, sob o risco de fracasso antes mesmo de a Conferência propriamente dita começar, pôde jogar, porém, com as contradições dentro do campo  empresarial e com a sustentação, por que sem alternativas, de entidades como a CUT ou o Fórum Nacional pela Democratização das Comunicações (FNDC). Interessava à Abra e à Telebrasil a realização de uma conferência que poderia enfraquecer politicamente a Abert e aproximá-los ainda mais do governo, desde que, porém, não abrisse caminho para todo o tipo de resolução raivosa, oriunda de segmentos populares, que esse tipo de encontro tende a abrigar. O governo aceitou as condicionantes exigidas pelos empresários e as impôs às “suas” entidades. Sem voz na CON, restou a um amplo, difuso, segmentado, inorgânico agrupamento social composto por miríades de organizações representativas de movimentos étnicos, sexuais, religiosos, comunitários etc., com suas muitas ONGs, se dobrar, apesar de pesados protestos, às regras que lhes caíam de cima.    

Em resumo, os empresários pediram e conseguiram: 1) que na composição das delegações, 40% dos delegados fossem indicados pela “sociedade civil empresarial”; outros 40% pela “sociedade civil não-empresarial” e 20% pelo governo; 2) que “questões sensíveis” somente fossem aprovadas se obtivessem 60% mais um dos votos, com pelo menos 1 voto em cada segmento; 3) que as conferências municipais e estaduais não tivessem caráter deliberativo.

Ao longo de setembro e outubro de 2009, apesar dessas regras e da enorme insatisfação que suscitavam, cerca de 30 mil pessoas, em todo o Brasil, se mobilizaram para discutir o sistema brasileiro de comunicações. Com certeza, é a primeira vez, no País, que tamanho contingente de quadros e militantes, boa parte do qual sem vinculação profissional direta com o tema, se reúne para discutir políticas mediáticas. Só essa apropriação do tema por um círculo tão grande de integrantes dos “movimentos sociais” já seria suficiente para consagrar o êxito da Confecom, considerando os seus desdobramentos políticos e mobilizadores futuros. Ao longo do processo, a Abra e a Telebrasil, inexperientes nessas arenas democráticas, começaram a experimentar o gosto do debate. Os “movimentos sociais”, não raro contando com individualidades já carimbadas de outras conferências como Saúde, Educação, Mulheres, Igualdade Racial etc., trouxeram  suas  bandeiras, idiossincrasias, revoltas, cobranças e arroubos militantes. Em meio a elas e tentando administrar as pressões, entidades mais orgânicas, como o FNDC, a CUT, o Coletivo Intervozes, o LaPCom da UnB ou o Clube de Engenharia do Rio de Janeiro, souberam produzir propostas estruturadas e estruturantes que lograriam introduzir a necessária racionalidade nos debates.   

 

Impasses quase críticos. Cerca de 1.400 propostas ou “teses” chegaram a Brasília, junto com quase 1.700 delegados vindos de todo o Brasil, dos quais menos de 1 mil participariam e votariam efetivamente nos GTs e nas sessões plenárias. Será uma questão a esclarecer, até porque há dinheiro público envolvido, onde estariam os outros quase 700 ausentes...

Logo no primeiro dia, a Confecom, ainda discutindo o seu Regimento, defrontou-se com um novo impasse. A Abra e a Telebrasil exigiam que o critério do “voto de qualidade”, antes previsto somente para as Plenárias finais, fosse estendido para os 14 grupos de trabalho. Por pouco, a conferência não terminou aí. Por sugestão do jornalista Renato Rovai, da revista Fórum, achou-se a saída: em cada GT, os dois segmentos da sociedade civil teriam o direito de enviar diretamente para as Plenárias finais quatro propostas, cada um, podendo o governo enviar duas. Ou seja, ao invés de vetos às teses dos outros, cada um ficava livre para privilegiar as propostas prioritárias de próprio interesse.

O segundo grande impasse aconteceria logo numa das primeiras votações em Plenária final. Os empresários apelam, pela primeira vez, para o recurso da “questão sensível”. Em resposta, os militantes mais sensíveis, por assim dizer, dos “movimentos sociais”, passam também a argüir “questão sensível” em não importa qual proposta de interesse empresarial. A  bancada empresarial  reage  na mesma moeda, sucedem-se as “questões sensíveis”, e a Confecom vê-se sob o sério risco de nada votar, nada aprovar, tudo terminar num grande e incontrolado bate-boca, para dizer o mínimo. As previsões da Abert, de um lado, e de alguns críticos pela esquerda, do outro (dentre os quais, o autor dessas linhas se assume) estariam confirmadas...

No entanto, prevaleceria a razão e o bom senso: sob o olhar do governo, um núcleo de quadros dirigentes da CUT, do FNDC, da Abraço, do Intervozes, da Telebrasil e da Abra se reúne numa sala ao lado e começa a arrolar quais seriam realmente as “questões sensíveis” de parte a parte. Enquanto isso, as mesas das Plenárias vão tentando encaminhar a votação de propostas menos sensíveis, dando tempo às conversas. Assim se construíram alguns acordos, pelos quais, de antemão, já se sabia quais propostas seriam “embarreiradas” pela inviabilidade de acordo, e quais propostas poderiam ser aprovadas por um lado, em troca de propostas aprovadas por outro, ou sem afetar interesses realmente estratégicos. Graças a essas decisivas conversas, o quase fracasso transformou-se num retumbante, emocionante mesmo, sucesso.       

 

Nada muito sensível. Ao cabo, a Confecom aprovou 672 propostas, 601 das quais por consenso nos próprios GTs, 71 em votação nas Plenárias finais. Pela regra acertada, a tese que obtivesse 80% ou mais de votos nos GTs estaria automaticamente aprovada e a que obtivesse menos de 30%, automaticamente rejeitada. No conjunto que sobrasse com mais de 30 e menos de 80 por cento dos votos, os segmentos escolheriam suas quatro propostas prioritárias (ou duas, no caso do governo) a serem enviadas para votação em Plenária, baixo o crivo das “questões sensíveis”.

Ou seja, nos próprios GTs, pequenas plenárias com cerca de 100 delegados cada um, foi possível negociar boa parte dos acordos, geralmente na base do toma lá, dá cá. Para a Abra e a Telebrasil eram, a rigor, poucas as teses que realmente interessavam: são as fundamentais para a reprodução do capital, estas que, nos tempos em que a esquerda era marxista, seriam consideradas decisivas, quase exclusivas em qualquer discussão, pois remeteriam à disputa central entre o capital e o trabalho. Já os “movimentos sociais” cuidavam, sobretudo, de garantir “direitos”. Como já explicou Slavoj Žižek, “a noção liberal de democracia também trata dos excluídos mas [...] focando na sua inclusão enquanto vozes minoritárias. Todas as posições devem ser ouvidas, todos os interesses devem ser levados em consideração, todos os direitos humanos devem ser garantidos, todos os modos de vida, de culturas, de práticas respeitados etc. A obsessão dessa democracia é a proteção de todo o tipo de minoria: cultural, religiosa, sexual. A fórmula dessa democracia consiste em pacientes negociações e compromissos. O que se perde nisto é a condição de universalidade embutida nos excluídos”[2]. Sendo assim, após alguns ajustes semânticos do tipo  substituir expressões tais como “proibir”, “controlar” ou similares por “sensibilizar”, “valorizar”, “promover” etc., dezenas de propostas de combate ao racismo, homofobia, discriminações de gênero e outras, muito similares entre si mas oriundas, cada uma, de algum grupo específico e cioso de sua especificidade, puderam ser aprovadas, até com relativa facilidade. Nem a Abra, nem a Telebrasil iriam perder muito tempo com isso, como ficou bastante evidente nas duas horas finais de Plenária, quando as principais questões já tinham sido votadas, e tudo o mais passou a ser aprovado por relaxada unanimidade.  

Também não se preocuparam muito com as teses funcionalistas da CUT, do FNDC ou do Intervozes, teses que, no fundo, ignorando velhas e novas lições de Economia Política, ainda acreditam numa “missão” democrática e cidadã dos meios de comunicações, apregoada desde os tempos de Milton ou Jefferson, passível de ser cumprida se forem removidos ou controlados os fatores  “disfuncionais” que lhes  afetam os comportamentos  empresariais e profissionais[3]. Para isto serviriam os “controles sociais”, as regras “anti-monopolistas”, o fortalecimento de um “serviço público” que possa complementar e também servir de parâmetro de qualidade para o serviço comercial, uma legislação, em suma, que tenha por modelo aquela típica das democracias liberais anglo-saxônicas. Essas teses também foram, no geral, aprovadas por consenso nos GTs. É verdade que, considerando as condições da democracia capitalista brasileira, se implementadas não deixarão de expressar um grande avanço político e cultural em nossa sociedade.   

A Telebrasil estava realmente preocupada com duas questões: aprovar a entrada das operadoras de telecomunicações nos serviços de TV por assinatura e aprovar algum programa de universalização da banda larga que pudesse ser executado pelas concessionárias e autorizatárias privadas, melhor ainda se com recursos do Fust. Ganhou a primeira ainda no interior do GT que tratou do tema (sem votação em Plenária, portanto) e perdeu a segunda pois a CUT e o Intervozes defendiam a formação de alguma rede pública (a CUT estava abertamente a favor da recriação da Telebrás) que viesse a assumir o comando e operacionalização desse programa. Neste caso, o impasse, dado o mecanismo da “questão sensível”, impediu a aprovação de quaisquer das teses, embora propostas genéricas defendendo a universalização da banda larga e do acesso à Internet tivessem sido aprovadas. 

A Abra também preocupava-se, a rigor, com duas questões: liberar a multiprogramação na TV aberta digital e estabelecer mecanismos de controle à monopolização da cadeia produtiva da radiodifusão. Ganhou esta, perdeu aquela. A Confecom aprovou várias teses voltadas para a desagregação da cadeia produtiva; para o aumento, via fomento e fixação de cotas, da produção independente, regional, educativa, comunitária nos canais de TV aberta e fechada; também para a fixação de um limite máximo de afiliadas que uma rede nacional de televisão pode conter. Mas não foi possível acordo quanto à multiprogramação. As emissoras ligadas à Abra, lideradas pela Rede Bandeirantes, querem liberdade para multiplexar seus canais abertos digitais e alugar as faixas daí resultantes, o que lhes facultaria maior retorno para o investimento que fazem na TV digital. O Intervozes, nisto secundado pelas demais entidades, só admitia multiprogramação relacionada a um mesmo programa em transmissão. Brandindo “questão sensível”, já civilizadamente acertada, cada parte vetou a vontade da outra parte.

 

Agenda legitimada. Como sabemos, as resoluções da Confecom não têm força de lei. Mas podem e deverão vir a ser transformadas em projetos do Executivo e do Legislativo, nos próximos anos. Ao contrário da legislação atualmente em vigor, gerada em gabinetes fechados do governo e aprovada a força de lobbies empresariais e de sabidos (mas nunca investigados) mensalões passados, uma nova legislação que venha a ser respaldada nas resoluções desta primeira e das próximas Confecons, estará politicamente respaldada e legitimada pelo debate aberto e franco envolvendo os diversos e diferentes segmentos da sociedade. Considerando, pois, o conjunto das resoluções aprovadas nesta Iª Confecom, o Executivo ou o Legislativo já poderiam considerar a possibilidade de construir um novo marco normativo para as comunicações brasileiras que incluiria os aspectos abaixo relacionados, aqui listados sem pretensão a esgotar todos os temas.

- Criação do Conselho Nacional de Comunicação Social. Comemorado como uma das principais conquistas das forças populares, trata-se de antigo projeto, proposto inicialmente na Constituinte de 1988, cujas origens remontam ao Conselho Nacional de Comunicações, instituído pelo Código de Comunicações de 1962 e extinto pela ditadura militar. Nas condições políticas atuais, o Conselho seria composto por representantes do governo, do empresariado e da sociedade civil não-empresarial, tendo poderes para formular e implementar políticas de comunicações. Também foram aprovadas propostas prevendo a criação de conselhos estaduais e municipais.

-  Criação do Conselho Federal de Jornalismo e elaboração de uma nova Lei de Imprensa. Independentemente da obrigatoriedade ou não do diploma específico para exercício da profissão, a atividade em si necessita de regulamentação, seja para assegurar, à sociedade, o livre acesso à informação (o recente boicote, pelo “Jornal Nacional”, à notícia da premiação do presidente Lula como Homem do Ano pelo Le Monde, é um autêntico escândalo!), seja para garantir aos profissionais condições reais para cumprirem, ou serem punidos se não cumprirem, o “código de ética” do jornalismo. Uma das teses aprovadas prevê incluir numa futura lei, a “cláusula de consciência” pela qual o profissional não poderia sofrer intimidações por escrever contra os interesses do seu patrão.

- Proibição de publicidade dirigida a menores de 12 anos. Sublinhando, por testemunho do autor destas linhas, que tal resultou de um acordo aceito pela Telebrasil e pela Abra, a Confecom deu importante respaldo à crescente mobilização da sociedade brasileira para proteger a nossa infância e nossa juventude da influência de mensagens publicitárias que visam formá-las como consumidores compulsivos, antes que se formem como cidadãos. Se uma lei nessa direção vier a ser aprovada, pode-se esperar algumas mudanças, para melhor, nas mentalidades de futuras gerações.

- Incentivo à produção audiovisual nacional, independente, regional ou comunitária. Foram dezenas as propostas aprovadas, por consenso, a favor de políticas de fomento e incentivo, inclusive com introdução de cotas ou criação de fundos, à produção nacional, ou independente, ou regional, ou comunitária, ou educativa etc. Uma delas, diz com todas as letras: “Garantir um mínimo de 50% do mercado nacional de radiodifusão e TV por assinatura para a produção de conteúdo nacional” (GT 4/PL 516). O Congresso Nacional está portanto autorizado a introduzir cota de 50% para produção nacional na programação dos canais estrangeiros em TV por assinatura, no lugar das atuais ridículas 3hs30m semanais, conforme consta em projeto de lei recentemente aprovado na Câmara (PL-29), agora a caminho do Senado.

- Universalização da banda larga e da internet. Como dito acima, diversas propostas aprovadas por consenso nos grupos de trabalho, confirmam a importância, mesmo prioridade, que a sociedade brasileira passou a dar a políticas públicas voltadas para a universalização da banda larga e do acesso à internet. No entanto, como operacionalizá-las ainda é motivo de forte dissenso, opondo as operadoras privadas às representações dos trabalhadores e dos movimentos sociais. Sabendo-se que por aqui avançarão as fronteiras capitalistas de acumulação nos próximos anos, entende-se a maior dificuldade, neste ponto, de um acordo.

- Obediência à Constituição, em especial aos seus artigos 221 e 222. A Confecom concordou que os meios de comunicação, independentemente das plataformas tecnológicas, devem todos obedecerem aos princípios constitucionais que estabelecem suas finalidades educativas e culturais (cabendo, pois, regulamentá-los), bem como limitam a participação de capital estrangeiro nesses serviços. Uma das propostas aprovadas estabelece que o capital estrangeiro deverá ser reduzido de 30 para 10 por cento. Se depender da Confecom, a própria Constituição deveria ser revista para eliminar a distinção que hoje faz entre radiodifusão e telecomunicações, deixando assim as operadoras de telecomunicações livres para prover conteúdos sem obediência aos princípios que regem apenas (por enquanto) as emissoras de radiodifusão.

- Desenvolvimento tecnológico e industrial. Sem muito alarde, foram aprovadas por consenso duas teses, no GT específico, reivindicando políticas de fomento ao desenvolvimento industrial e tecnológico, inclusive aproveitando as novas oportunidades de mercado a serem abertas pela provável expansão da infra-estrutura de banda-larga, nos próximos anos.

- Garantia de direitos. Sem muita polêmica, como vimos, foram aprovadas quase todas as teses que reivindicavam respeito aos, ou promoção dos direitos de minorias, mulheres, trabalhadores e cidadãos em geral.

- Rádios e TVs comunitárias. Este segmento, nucleado pela Abraço e pela ABCCom, foi um dos que mais se mobilizou pela realização da Confecom e, até por isto, nenhuma resistência opôs às exigências empresariais, encaminhadas pelo governo, temendo, caso contrário, a não concretização da conferência. Foi brindado, ao final, com a aprovação de quase todas as suas teses de fomento à radiodifusão comunitária e de condenação à criminalização, em curso inclusive sob o governo Lula, de ativistas do movimento. Aliás, o próprio presidente da República, em sua fala na abertura da Confecom, no único momento em que se afastou do texto lido, acabou deixando escapar palavras que traem o preconceito da sociedade, bem alimentado pela grande mídia, contra os batalhadores da radiodifusão comunitária.

A Confecom estabeleceu um divisor de águas nas lutas pela democratização das comunicações no Brasil, seja por ter incorporado ao debate amplos segmentos até então distantes do tema; seja por ter, com suas teses aprovadas, estabelecido orgânica e legitimamente uma pauta para a discussão de um novo marco regulatório; seja, sobretudo, pelas pontes políticas e até pessoais de diálogo que lançou entre os dois grandes conjuntos sociais que disputam essa política, o empresariado e a sociedade civil não-empresarial. A Confecom identificou atores e lideranças que poderão, a partir de agora, aprendidas de parte a parte as lições, tentar construir uma nova, democrática e nacional legislação para as comunicações brasileiras. Por outro lado, não se poderá ignorar, nos encaminhamentos futuros, as posturas atrasadas e atrabiliárias, mesmo no contexto da democracia liberal capitalista, da Globo, da ANJ e de seus satélites, ainda recusando o diálogo e a negociação, isto é, ignorando as novas configurações democráticas que vão assumindo a sociedade brasileira e também o capitalismo global. Resta esperar que, apesar de seus indefectíveis editoriais de ocasião, nos interiores de seus órgãos de decisão estejam sabendo avaliar o real significado dessa e de outras derrotas recentes. Ou vão seguir se comportando que nem os últimos escravocratas às vésperas do 13 de maio?



[1] Professor da Escola de Comunicação da UFRJ, doutor em Engenharia de Produção pela COPPE-UFRJ, autor de A lógica do capital-informação (Ed. Contraponto, 2002). O autor participou da Confecom como delegado eleito pela sociedade civil não-empresarial do Estado do Rio de Janeiro.

[2] Slavoj Žižek, “How to begin from the beginning”, New Left Review, nº 57, maio-junho de 2009, disponível em http://www.newleftreview.org/?view=2779, acessado em 11/01/2010.

[3] Elvira Lobato, “Confecom não atinge mídia, afirmam empresa e ministério”, Folha de S. Paulo, 19/12/2010, disponível em http://www1.folha.uol.com.br/folha/brasil/ult96u668988.shtml, acessado em 11/01/2010.

 
 
 

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